—Você quer comprar a comida que eu já pedi para você jogar fora?
—Quero trabalhar para ela.
Uma mulher riu.
—Que trabalho extra você poderia fazer? A casa está limpa.
Marisol olhou para o grande retrato de Alejandro pendurado acima da lareira. Era um retrato elegante, tecnicamente perfeito e completamente frio.
—Eu consigo desenhar.
As gargalhadas ficaram mais altas.
“Você?”, perguntou Alejandro.
-Sim, senhor.
—E com o que você vai fazer isso? Um esfregão?
Marisol engoliu em seco.
—Só preciso de papel e carvão.
A Dra. Beatriz Soria, uma curadora de prestígio convidada para o jantar, colocou seu copo sobre a mesa.
—Dê uma chance a ele, Alejandro.
-Você está falando sério?
—Ela pediu um emprego em troca de comida. Deixe-a fazer isso.
Alejandro olhou para Marisol como se tivesse acabado de descobrir uma nova forma de entretenimento.
“Você tem 10 minutos. Se o retrato ficar tão bom quanto você diz, pode levar o resto. Caso contrário, você volta para a cozinha e não atrapalha mais o jantar.”
-Aceito.
Dona Ofélia, a governanta, trouxe uma folha grossa de papel. Beatriz tirou um pedaço de carvão de uma pequena caixa que carregava na bolsa.
Alejandro estava de pé sob a luz, de frente para um retrato caro na parede.
—Tente não copiar demais o artista original.
Marisol não respondeu.
As piadas continuaram durante o primeiro minuto. No terceiro minuto, começaram a desaparecer.
O rosto no papel era inconfundível. Marisol captou as sobrancelhas grossas, o maxilar tenso e aquele semblante, como se esperasse que todos o desapontassem.
No entanto, faltava algo.
Enquanto desenhava, ela percebeu que Alejandro olhava constantemente para a cadeira vazia na cabeceira da mesa. Cada vez que ele fazia isso, a dureza em seu rosto suavizava por um instante.
Marisol acrescentou uma cadeira ao retrato.
Alejandro descobriu isso.
-O que você está fazendo?